Na venda do seu Ribamar,
Quase de tudo podia se achar.
Tinha ramona e brilhantina
Para ficar bonita os cabelos da menina.
Tinha peças de bicicleta,
Que era o meio mais usado na vila,
Vendia muita sandália Havaiana,
Rapadura, cigarro e queijo,
Nossa, como tudo isso ainda claramente revejo!
É na beira de uma rodovia,
Onde passa muitos carros,
E a gente gostava de contar os carros
E os caminhões coloridos,
Que apostávamos e tentávamos adivinhar
Qual a próxima cor que apareceria.
No armazém do seu Riba,
Tinha de tudo um pouquinho:
Balinha, remédio, chiclete,
E até passarinho.
Tinha uma mesa de sinuca,
Que ele deixava a gente jogar,
Quando o freguês não ia mais voltar,
Ou tínhamos que esperar o armazém fechar.
Tinha tatu congelado para depois cozinhar,
Arroz, farinha e feijão pesado a granel,
E tinha até um bom mel.
E um vizinho para ser medicado,
E sempre um amigo vaqueiro para ser suturado.
Lá vendia pinga com raiz dentro,
Fumo de rolo no metro,
Muitas coisas que não vejo mais.
A saudade de como era lá, é demais!
Quando o armazém fechava,
Eu jogava dama com meu pai,
E ninguém, nem eu,
Ganhava do seu Riba.
Na época do Natal,
Tinha bolas e bonecas embaladas,
E outras coisas penduradas,
Que fazia a alegria da criançada.
Vendia colher de madeira,
Alguns básicos mantimentos,
Leite e mamadeira,
Panela de ferro fundido,
E uma arma camuflada dentro de um livro,
Para atirar no bandido.
Vendia comprimidos, bombom,
E doce de leite caseiro muito bom!
Tinha um baleiro grande,
Que gemia quando girava,
E logo nos entregava.
Porque ao meu pai avisava
Quando um chiclete ou bala eu pegava.
Gostávamos de ficar embaixo do pé de gameleira,
Onde se podia colocar um balanço,
E durante o dia era o point dos moradores,
E também dos namoradores.
Onde também se amarravam os cavalos,
Eu adorava me ver nos olhos deles!
E eu ficava com eles encantada!
Enquanto seus donos faziam compras,
As crianças faziam festaiada.
Na penumbra da lua,
Ao som de um radinho,
Que por ser de pilha,
Tocava bem baixinho,
A gente ouvia uma rádio,
Que tocava as músicas modernas,
Assim era nosso lazer noturno.
Até nos chamarem para dentro,
Nós e nossas lanternas.
O armazém do seu Ribamar,
Ficava em Vila Boa,
Onde na casa de quase todo mundo se criava uma leitoa,
Onde as crianças brincavam mais de noite que de dia,
Onde os pais conversavam ao redor de uma fogueira,
Onde as férias lá era só alegria.